BIOMEDICINA
Ao concentrar-se em partes cada vez menores do corpo, a medicina moderna perde freqüentemente de vista o paciente como ser humano, e, ao reduzir a saúde a um funcionamento mecânico, não pode mais ocupar-se com o fenômeno da cura. O motivo da exclusão do fenômeno da cura da ciência biomédica é evidente. É um fenômeno que não pode ser entendido em termos reducionistas. Reincorporar a noção de cura à teoria e à prática da medicina, significa que a medicina terá que transcender sua estreita concepção de saúde e doença. A prática da medicina popular tem sido tradicionalmente uma prerrogativa das mulheres, uma vez que a arte de curar, na família, está usualmente associada às tarefas e ao espírito da maternidade. Na sua concepção das doenças humanas, Pasteur mostrava a mesma consciência ecológica. Ele tomou por certo que o corpo saudável exibe uma forte resistência a muitos tipos de micróbios. Ele sabia muito bem que todo e qualquer organismo humano atua como hospedeiro para uma multidão de bactérias, e assinalou que estas só podem causar danos quando o corpo está debilitado. Muitas razões são apontadas para o descontentamento generalizado com as instituições médicas - inacessibilidade de serviços, ausência de simpatia e solicitude, imperícia ou negligência -, mas o tema central de todas as críticas é a impressionante desproporção entre o custo e o benefício da medicina moderrna. A conclusão a ser extraída de alguns estudos da relação entre medicina e saúde parece ser que as intervenções biomédicas , embora extremamente úteis em emergências individuais, tem muito pouco efeito sobre a saúde de populações inteiras. A saúde dos seres humanos é predominantemente determinada, não por intervenções médicas, mas pelo comportamento pela alimentação e pela natureza do seu meio ambiente. Um número crescente de pessoas, dentro e fora do campo médico, percebe as deficiências do atual sistema de assistência à saúde e aponta suas raízes na estrutura conceitual que serve de suporte à teoria e à prática médicas; elas passaram a acreditar que a crise persistirá se essa estrutura não for modificada. Obedecendo à abordagem cartesiana, a ciência médica limitou-se à tentativa de compreender os mecanismos biológicos envolvidos numa lesão em algumas das várias partes do corpo. Esses mecanismos são estudados do ponto de vista da biologia celular e molecular, deixando de fora todas as influências de circunstâncias não-biológicas sobre os processos biológicos. A educação médica, assim dizem eles, deve estar dissociada, por definição, das preocupações sociais, uma vez que estas são causadas por forças sobre as quais os médicos não tem controle Mas os médicos desempenharam um papel importante na criação desse dilema, ao insistirem em que só eles estão qualificados para determinar o que constitui doença e selecionar a terapia apropriada. Na medicina moderna, os problemas psicológicos e os problemas de comportamento são estudados e tratados por psiquiatras. Embora sejam médicos com treinamento formal, saídos das mesmas escolas de medicina, existe pouca comunicação entre eles e seus colegas de outras áreas, ou seja, entre os profissionais da saúde mental e os profissionais da saúde física. Muitos médicos chegam a olhar com sobranceria os psiquiatras, considerando-os médicos de segunda classe. Isso mostra, uma vez mais, o poder do dogma biomédico. Os mecanismos biológicos são vistos como a base da vida, os eventos mentais, como fenômenos secundários. Os médicos que se ocupam da doença mental são considerados menos importantes. A antiqüíssima arte de morrer deixou de ser praticada em nossa cultura, e o fato de ser possível morrer com boa saúde parece ter sido esquecido pela classe médica. Enquanto no passado um dos mais importantes papeis de um bom médico era proporcionar conforto e apoio aos pacientes moribundos e a sua família, os médicos e outros profissionais da saúde deixaram hoje de ser treinados para lidar com pacientes agonizantes e acham extremamente difícil enfrentar o fenômeno da morte. Eles tendem a ver a morte como um fracasso; os corpos são retirados dos hospitais secretamente, na calada da noite, e os médicos parecem significativamente mais temerosos da morte do que as outras pessoas, doentes ou saudáveis. É desconcertante e deveras irônico que os próprios médicos sejam os que mais sofrem em decorrência da concepção mecanicista de saúde por desprezarem circunstâncias estressantes próprias de sua vida. Hoje, a expectativa de vida entre os médicos é de dez a quinze anos a menos que a média da população, e eles apresentam elevadas taxas de doença física, alem de altos índices de alcoolismo, abuso de drogas, suicídio e outras patologias sociais. A educação e a prática médicas perpetuam as atitudes e os padrões de comportamento de um sistema de valores que desempenha um importante papel na causa de muitas das enfermidades que a medicina pretende curar. De 30 a 50 por cento dos casos de hospitalização atuais são clinicamente desnecessários, por outro lado, serviços alternativos que poderiam ser, do ponto de vista terapêutico, mais eficazes desapareceram quase por completo. O excessivo uso de alta tecnologia na assistência médica, alem de antieconômico, causa dor e sofrimento desnecessários. Acidentes em hospitais ocorrem mais freqüentemente do que em quaisquer outras indústrias, exceto a mineração e a construção civil de prédios altos. Os elevados riscos da moderna tecnologia médica levaram a um outro significativo aumento nos custos da saúde através do crescente número de processos judiciais por imperícia ou negligência contra médicos e hospitais. Os médicos americanos praticam uma "medicina defensiva" servindo-se cada vez mais de tecnologia diagnóstica, o que provoca novos aumentos nos custos da assistência médica e expõe os pacientes a riscos adicionais. Enquanto a enfermidade é uma condição do ser humano total, a doença é a condição de uma determinada parte do corpo; e em vez de pacientes que estão enfermos, os médicos concentram-se no tratamento de suas doenças. Perderam de vista a importante distinção entre os dois conceitos. Da gigantesca população de bactérias da Terra, apenas um pequeno número delas é capaz de gerar doenças em organismos humanos, e mesmo essas são usualmente destruídas no devido momento pelos mecanismos de imunização do próprio organismo. Experimentos recentes com medicamentos herbáceos indicam que o princípio ativo purificado é menos eficaz como remédio do que o extrato natural da planta, porque este último contem elementos residuais e moléculas que foram consideradas sem importância, mas que desempenham um papel vital para limitar o efeito do principal ingrediente ativo São eles que mantém a reação do corpo dentro de limites em que não ocorrem efeitos colaterais. A atual terapia baseia-se no princípio de intervenção médica, confiando em forças externas para a cura ou, pelo menos, para o alívio do sofrimento e do desconforto, sem levar em consideração o potencial curativo do próprio paciente. O pessoal de enfermagem, embora seja com freqüência altamente qualificado, como os terapeutas e os sanitaristas, ë considerado mero auxiliar dos médicos e raramente pode usar todo o seu potencial. Em virtude da estreita concepção biomédica de doença e dos padrões patriarcais de poder no sistema de assistência à saúde, o importante papel que as enfermeiras desempenham no processo de cura, através do contato com os pacientes, não é plenamente reconhecido. Graças a esse contato, as enfermeiras adquirem freqüentemente um conhecimento muito mais amplo do estado físico e psicológico dos pacientes do que os médicos, mas esse conhecimento é considerado menos importante do que a avaliação "científica" do médico, baseado em testes de laboratório. O ensino da medicina nos Estados Unidos foi moldado, em sua forma atual, no começo do século, quando a American Medical Association encomendou uma pesquisa nacional sobre as escolas de medicina com o objetivo de dar a esse ensino uma sólida base científica. Um objetivo paralelo da pesquisa foi canalizar as gigantescas verbas de fundações recém-estabelecidas - especialmente as concedidas pelas fundações Carnegie e Rockfeller - para algumas instituições médicas cuidadosamente selecionadas. Apenas 20 por cento de todas as escolas de medicina norte-americanas estavam dentro dos padrões "científicos". As outras viram-se forçadas a fechar, através de pressões legais e financeiras, coincidentemente tratavam-se de instituições que tinham admitido estudantes negros, pobres e do sexo feminino. Em especial, a instituição médica opunha-se veementemente ã admissão de mulheres, originando-se daí uma série de obstáculos contra o treinamento e a prática das médicas. Uma geração atrás, mais da metade de todos os médicos eram clínicos gerais; agora, mais de 75 por cento são especialistas, limitando sua atenção a um grupo etário, doença ou parte do corpo bem determinados. Segundo David Rogrs, isso resultou na evidente incapacidade da medicina norte-americana para lidar com os casos simples de atendimento médico de nossa população. A tarefa do clínico geral requer, alem de conhecimento científico e da habilidade técnica, bom senso, compaixão e paciência, o dom de dispensar conforto humano e devolver a confiança e a tranqüilidade ao paciente, sensibilidade no trato dos problemas emocionais do paciente e habilidades terapêuticas na condução dos aspectos psicológicos da enfermidade. Essas atitudes e habilidades não são geralmente enfatizadas nos atuais programas de treinamento médico, nos quais a identificação e o tratamento de uma doença específica se apresentam como a essência da assistência médica. Alem disso, as escolas de medicina promovem vigorosamente um sistema de valores "machista", desequilibrado, desprezando qualidades como a intuição, a sensibilidade e a solicitude, em favor de uma abordagem racional, agressiva e competitiva. A maioria dos pacientes não entende muito bem a complexidade do seu organismo, pois foram condicionados a acreditar que só o médico sabe o que os deixou doentes e que a intervenção tecnológica é a única coisa que os deixará bons de novo. Muitas pessoas aderem obstinadamente ao modelo biomédico porque receiam ter seu estilo de vida examinado e ver-se confrontadas com seu comportamento doentio. .. Extraído do livro: "O Ponto de Mutação" Autor: Fritjof Capra, Editora Cultrix
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Saúde e Alimentação / Pesquisa HP